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A nossa relação com a música mudou ou evoluiu?

A nossa relação com a música mudou ou evoluiu?

Há muito tempo atrás – ou nem tanto tempo assim, depende da sua idade – não existiam diversos serviços facilitadores como hoje em dia. Netflix, Spotify, Uber, Adobe Creative Cloud e tantos outros sites de assinaturas mensais que sequer seriam possíveis por conta de limitações tecnológicas ou econômicas.

E toda essa mudança fica mais evidentes quando falamos de música. Atualmente, principalmente para os mais novos, consumir música é abrir o seu serviço de streaming e simplesmente dar play, nos gigantescos catálogos que ficam a disposição em qualquer lugar com acesso a internet. E, para alguns, esse já pode ser o único modo que conheçam de consumir músicas.

Mas nem sempre foi assim. Quando, este que vos escreve, era mais novo só haviam duas formas para consumir música: comprando cd’s ou mp3’s e baixando, clandestinamente, por torrents ou links diretos. Lembro que no computador de casa haviam gigas e mais gigas de músicas, dividas em pastas e sub-pastas. Organizar esse monte de mp3’s não era simples, afinal não bastava apenas separar por álbuns, era necessário editar as informações do MP3, arrumando jeitos para que ao reproduzir o arquivo no Windows Media Player – MEU DEUS! – a capa do álbum ficasse visível e, de preferência, em alta resolução.

Obviamente boa parte desses downloads, praticamente todos, eram feitos de forma ilegal e, talvez, na época eu não tivesse ideia do quão prejudicial isso poderia ser para os artistas que gosto de acompanhar o trabalho. Seja por falta de noção ou maturidade, encarava a internet como um “mundo sem regras” e acreditava que tudo que era encontrado poderia ser meu sem que fosse necessário pagar nada em troca.

O download das músicas tinha que ser feito estrategicamente, afinal meu Speedy de 1MB não permitia excessos. Talvez até por isso, inconscientemente, na ansiedade de escutar logo as músicas desejadas, buscava informações sobre a banda em questão, curiosidades, informações sobre os integrantes e qualquer outra informação que fosse relacionada.

Dessa forma criei meus laços com bandas como Foo Fighters, Queens of Stone Age, 3 Doors Down, The Killers, This is Standoff, The Fullblast e outras nacionais como CPM 22, Paralamas do Sucesso, Skank e etc. Era necessário, algumas vezes, pesquisar o histórico da banda e descobrir algumas músicas de sucesso, encontra-las para download e se aprovadas aí sim partir em busca das famosas discografias em torrent.

A minha relação com a música cresceu e se desenvolveu dessa forma, não foi rasa, superficial ou passageira. As bandas com as quais criei vínculos ainda adolescente, algumas delas já terminaram como o This Is Standoff, escuto até hoje e descubro novas bandas nos famosos “Artistas Relacionados” do Spotify.

Por causa desse tipo de relação não só minha, mas também de outros milhões de pessoas pelo mundo, assistimos e participamos do surgimento de bandas como Foo Fighters, Peral Jam, The Killers, Rolling Stones e tantas outras entidades da música mundial. Não era apenas buscar um artista ou música e dar o play, era preciso, de certa forma, dedicação e envolvimento para encontrar todas essas informações e aquela faixa rara de um show feito no início da banda, em um bar escondido no interior do E.U.A.

Não estou querendo fazer comentários como “na minha época era muito melhor”, mas percebo que atualmente, por todas as facilidades, tudo é muito instantâneo. Não é preciso mais garimpar por sites mal feitos e de certa forma, ser recompensado pelo download alcançado. E muito pelo contrário, não quero incentivar a pirataria, afinal nada mais justo que pagar por aquilo que consumimos.

Mas por conta de toda essa facilidade e superficialidade que vivemos hoje em dia, percebo claramente o quão difícil é o surgimento de artistas do calibre de um Elton John, Dave Grohl, Janes Joplin, Cassia Eller, Eddie Veder entre outros. O envolvimento do público mais jovem pode ser muito mais intenso, mas também pode ser tão passageiro quanto um meme engraçadinho no Twitter.

Adoro serviços como o Spotify e Netflix, mas agora é preciso muito mais para se envolver, muito mais para cativar ou pode ser que atravessemos um momento de tanta indiferença em nossa sociedade, que essa superficialidade com a música é apenas mais um resultado da falta de empatia que vemos por aí.

E também há a possibilidade eu estar apenas envelhecendo e ficando mais chato.