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As medalhas conquistadas não são para você, falso brasileiro, e sua turma

As medalhas conquistadas não são para você, falso brasileiro, e sua turma

De quatro em quatro anos acontecem dois eventos esportivos que tem a capacidade de parar um país: Copa do Mundo e Jogos Olímpicos.

Junto com esses eventos são desencadeados dois sentimentos que tomam conta de boa parte da população do nosso país. O primeiro é o ataque de patriotismo, do orgulho de ser brasileiro, de torcer enlouquecidamente e cantar o hino nacional – o mais belo de todos os hinos, diga-se de passagem – como se fosse a última vez na vida. E nisso não há nada de errado.

O segundo e preocupante, no meu ponto de vista, é o outro lado da moeda desse patriotismo falso e mentiroso que é tão raso quanto uma poça de água de uma breve garoa paulista. O direito que surge, apenas na cabeça dessas pessoas, que os atletas que ali estão são obrigados a ganhar medalhas de ouro e prata – afinal bronze é para os fracos – para satisfazer as vontades de quem lembrou de ser brasileiro.

Ao contrário do futebol masculino, onde os jogadores são conhecidos e recebem um suporte incomparavelmente maior, atletas brasileiros que foram nos representar em esportes como atletismo, judô, canoagem, vela, tênis, ginástica, natação e até mesmo o vôlei sequer são conhecidos por boa parte da população. Mas que a cada quatro anos recebem a missão, nada injusta, de colocar a bandeira verde e amarela no lugar mais alto do pódio.

É colocado nos ombros desses atletas a responsabilidade de lembrarem a população, a cada quatro anos, como é bom ser brasileiro. Como é legal encher estádios e cantar, com emoção a flor da pele, que somos todos brasileiros e com muito orgulho. Mas, com um imenso asterisco de só valer a pena, de verdade, ser for no lugar mais alto do pódio. Caso contrário amigo aceite a revolta popular e tudo o que vier com ela.

Como assim você atleta que “só faz isso da vida”, que não recebe investimento nenhum, que na maioria dos casos precisa se financiar ou correr atrás dos seus próprios patrocínios não consegue ganhar uma mísera medalha de ouro? Entra nessa competição para fazer o país todo passar a vergonha de ser eliminando antes mesmo das finais? Que lixo é ser brasileiro, não é mesmo?

Atletas que muitas vezes sacrificam o convívio com seus amigos e familiares, buscam melhorar dia após dias para tentar, com muito sofrimento, atingir o índice que permita a sua participação no evento mais importante de sua vida como esportista. E, aí quando parece que acabou, continua a saga por mais apoios financeiros para que eles possam ter condições de treinar fora do país para, quem sabe, tentar chegar em finais e talvez conseguir uma medalha e, dessa forma colocar a bandeira de um país que os negligencia, mas que exige resultados nada humildades no pódio junto com outros países que possuem investimentos muito maiores que os nossos.

Li comentários maldosos de que esses jogos seriam um fiasco, em medalhas e organização, vi piadinhas comparando o Brasil com países que não ganharam muitas medalhas, críticas descabidas as desclassificações de atletas que não conseguiram chegar a finais. Esportes como polo aquático e hóquei de grama sofreram com gozações pelo esforço e dedicação de tentar fazer o melhor possível, dentro das suas limitações, e honrar as cores da bandeira e do hino que tanto foi repetido. Se conseguiram ou não, sinceramente, não importa. Eles lutaram contra um país que vive exclusivamente para o futebol masculino e conseguiram, apenas com seus esforços, estar competindo dentro da maior honraria do esporte.

Apesar de saber que quem esteve no Rio de Janeiro apoiou, gritou e compensou cada segundo de esforço desses heróis desconhecidos, é triste saber que ainda há uma parcela da população que na verdade criticavam os atletas e suas participações e não fazia a menor questão de entender que estar em um final olímpica – o que aconteceu com vários atletas de nosso país – já é uma imensa vitória para os minúsculos investimentos que nossos heróis recebem.

E para quem acha que essas medalhas possam ser um orgulho para o país, faço questão de dizer para não ser iludir. Os únicos merecedores dessas medalhas, são os próprios atletas. Eles sabem o que é lutar contra a falta de investimento, contra as diferenças culturais e, principalmente, contra o próprio país para poder realizar o sonho de ser o melhor esportista olímpico em sua categoria.

Hoje gritar o nome de um brasileiro na canoagem é fácil e bonito, porém poucos sabiam que Isaquias Queiroz tem duas medalhas de outros em mundiais de canoagem de velocidade. Mais duro ainda, é saber que daqui trinta dias ou menos ninguém sequer lembrará de seu nome ou de outros ganhadores nesse #Rio2016.

Então, para você que é brasileiro de quatro em quatro anos, que na verdade tem vergonha do seu país, vergonha do seu povo, que se acha melhor e é – usando a expressão correta – “babá ovo de gringo”, essas medalhas conquistadas, as marcas atingidas, os recordes brasileiros quebrados e os caminhos iniciados em esportes não tradicionais por aqui, não são para esse seu falso canto de orgulho, essa sua emoção maquiada com uma camisa verde e amarela sem validade.

Que possamos ver muitos mais Isaquias, mais Thiagos, mais Robsons, Rafaelas e Polianas, porque de Neymars e metidinhos o Brasil já está cheio demais.