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Tudo Passa, Tudo Passará

– Não! Eu não sou escravo de ninguém, posso viver minha vida sem ela.

No telefone, ele tentava não se exaltar e quando percebia que a voz aumentava mais uma vez, começava a falar quase cochichando, até que se esquecer e elevar a voz novamente.

– Eu também lamento muito. Tenho medo como será daqui pra frente, mas não posso aceitar o que aconteceu, nunca aceitei isso de ninguém, não é agora que isso vai mudar.

Se despediu e desligou. Então, como vinha acontecendo nos últimos dias, revivia tudo mentalmente. Refazendo cada trajeto, cada diálogo, cada palavra, cada expressão, algo que talvez tenha passado desapercebido. Buscava algum sinal naquele filme já tão repetido que pudesse ter lhe avisado o que estava por vir.

Alguns dias atrás eles tinham confirmado que iriam numa festa organizada pelo pessoal do trabalho dela. Já não estavam bem há algumas semanas, viu nisso uma oportunidade para amenizar o clima, um pouco de diversão seria bom. A festa seria na Barra da Tijuca e apesar de ele não gostar das curvas fechadas, pegaram o caminho mais rápido, o Alto da Boa Vista. Quando finalmente chegaram, o GPS registrava 33,8 KM percorridos, o lugar não era tão perto como ela havia falado e, de certa forma, isso o irritou.

O porteiro indicou a cobertura, subiram no elevador e assim que as portas se abriram, a batalha entre a música e a mistura de vozes denunciavam onde era a festa. Entraram e logo foram recebidos pelos gritinhos histéricos das amigas, que após o cumprimentarem, a sequestraram da vista dele. O apartamento era um duplex e tinha gente para todo lado, em comum, os copos nas mãos. Depois de algum tempo com o seu, vazio pela 4ª vez, ela ainda não tinha voltado. Sentiu-se só, como nunca antes, claro, sem desmerecer a colaboração da bebida para isso.

Perambulando pelo apartamento, agora já com menos vozes, reconheceu a dela, ainda que de longe. Ela falava enrolado, o que dificultava entender a conversa, mas foi fácil perceber que no silêncio que se seguiu houve um beijo. Mesmo zonzo, ele conseguiu manter-se quieto. Queria saber o quanto aquilo duraria, mas segundos depois, a escutou pedindo desculpas, dizendo que precisava procurar ir embora. De onde estava, pode vê-la passar apressada e meio cambaleante.

A volta foi ocupada pelo barulho que o silêncio faz. O pesar dele, a culpa dela.

Os dias que se seguiram foram monossilábicos. Somente o indispensável, como com os motoristas de coletivo. Insone, os pensamentos estavam divididos entre buscar vingança por outras mãos, assim, pagando com a mesma moeda, ou apenas abandonar tudo e voltar para a sítio dos pais, no interior do estado. Lugar, aliás, que o preenchia de um pertencimento singular, adorava as pessoas simples, a cidade pequena, o trato com os cavalos e o espetáculo que era o céu à noite. Mais um dia se passava.

Na volta para casa, com algumas doses de uísque barato misturado as palavras, disse a ela tudo que estava represado:

– Quase acreditei em você! Quase acreditei que você mudaria, que valia a pena abandonar tudo para viver com contigo!

– Me desculpe, eu sabia que esse momento chegaria, que você sabia o que tinha acontecido. Pelo menos agora essa apreensão, esse estado de medo que eu estava vivendo vai acabar. Eu fui uma covarde, mas eu te amo – disse ela sem aos prantos.

– Eu não sou idiota! Eu vou embora, já pedi demissão hoje, vou voltar pra onde não deveria ter saído.

E sem escapar do clichê, saiu de casa batendo a porta. Não conseguia pensar em passar a noite no mesmo lugar que ela, seria melhor esfriar a cabeça (embora o vento quente do verão não facilitasse) e somente depois pegar suas coisas.

Seus pais, como sempre, o receberam de braços abertos, sem perguntas, prontos só para acolhe-lo. Eles sabiam que, quando estivesse pronto, ele mesmo os procuraria para esclarecer as coisas.

Recluso em seu quarto (que não mudara em nada enquanto esteve ausente), se assombrava com a confissão dela, com o ato estúpido que manchou todas as lembranças que eles construíram juntos. Momentos que agora faziam parte de um tempo distante, um tempo que não existe mais.

Até então, uma semana depois de sua volta para a casa dos pais, nenhum contato tinha sido mantido entre eles, fato esse, que o surpreendeu ainda mais quando ela apareceu no sítio.

Ainda estava se recuperando das lembranças trazidas pela ligação de sua amiga, quando a viu pela janela, antes da campainha ressoar pela casa. Nos segundos que antecederam o encontro, reconheceu o quanto ainda gostava dela, a atração que seu corpo sentia por ela. Enquanto conversavam, ele tentou demonstrar indiferença, ela fingia não perceber e falava do seu  arrependimento, pedindo que voltasse. Os sentidos já não respondiam, mas ele tinha que resistir. E resistiu. Mas a verdade era que aquela visita inesperada tinha mexido com ele. Por um lado, queria se entregar, por outro, não, precisava lutar, não podia se render àquele desejo intenso por ela, que insistia em ignorar a sua dor.

Três meses se passaram. Marcaram de se encontrarem num dos bares do centro da cidade dele. Não era um bar qualquer, afinal haviam trocado os primeiros olhares e palavras nesse lugar. Quando a viu entrar, ele percebeu que tudo havia passado, teve a certeza que a história deles merecia um final feliz. E num frase impensável há algum tempo atrás, ele fez sua proposta:

– Vamos viver, sem olhar pra trás, vamos começar tudo a partir de agora.

Cinco anos depois, numa dia de tempestade, Natália decidira dar fim a relação, estava apaixonada por outra pessoa.

  • Rodrigo

    Muito bem escrito! Os diálogos, o desenvolvimento e a relação dos personagens estão bem de acordo com a realidade vivida em muitos relacionamentos, sem prejuízo de alguns instantes de lirismo, próprios do processo de construção do texto literário.