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Série [Caleidoscópio] – O Velho

Série [Caleidoscópio] – O Velho

É a terceira vez, só hoje, que deixo o copo cair. Minha filha, pacientemente, limpa o chão e os respingos na parede. Depois dessa cena ter se repetido algumas vezes, pedi para usar sempre um copo de plástico, assim os cacos de vidro deixam de ser uma preocupação. Minhas mãos já não me obedecem, balançam mais que vara verde. Faço fisioterapia duas vezes por semana, mas não sinto diferença nenhuma. Eu acho que isso é história para ganhar dinheiro dos outros. Como não sou eu quem está pagando, não faço desfeita. A verdade é que não sei mais o que significa controlar. Não controlo minhas mãos, minha bexiga, minhas pernas, minha vida. Já cansei de nadar contra a maré, agora, boio e deixo que ela me leve. Para se ter uma ideia, minha filha insistiu para eu vir morar com ela. Depois de tanto resistir, aceitei, embora essa sensação de ser um peso não me abandone e, como eu não falo com o meu outro filho, sobrou para ela, coitada. Daquele lá não quero saber de jeito nenhum. Um arrogante, isso é o que ele é. Quando eu morrer, vai se corroer todo de remorso. Aí já era, tarde demais, bau-bau. Agora, o filho dele não, um garoto de ouro, carinhoso, tem um abraço sincero, gosto muito quando me visita. Pena que isso não aconteça tanto.

Já o que mora aqui, o caçula, apesar de ser inteligente pra idade, falar até as cores em inglês, fazer natação, escolinha de futebol e o escambau, é muito malcriado pro meu gosto. Outro dia, pedi para pegar o jornal que tava em cima da mesa pro vô e ele me deu língua, disse que eu não mandava nele. Vê se pode! Na minha época ganhava umas belas palmadas na bunda. Sim, senhor. Agora não, tudo pode, é tudo moderno, não tem mais espaço para essas coisas, tudo corre muito solto. Esses dias mesmo, tava vendo novela, minha filha adora assistir novela, enquanto meu genro fica no quarto vendo aqueles canais de leilão. Olha que avisei. Na época que namoravam, eu falei pra ela que o rapaz não era muito certo da cabeça. Gente esquisita assim, eu conheço só de olhar. Enfim, na cena, um rapaz afeminado se insinuava para um outro, depois a outra queria arrumar uma maneira de roubar o marido da vizinha, e ainda tinha o irmão que não sabia que namorava a própria irmã. Uma confusão dos diabos! Quer dizer, onde vamos parar? Depois querem dizer que sou saudosista, mas não é pra ser? Quando eu era mais novo, passavam uns filmes muito bons, de velho oeste, de espada, aquela série que tinha um nome de mulher, qual é mesmo o nome? Era muito boa. Passava na Tupi. Isso mesmo. Tava na ponta da língua… Esqueci. Quando não precisar, vou lembrar.

Mas o negócio é que quando me deparo com coisas assim, tenho a certeza que a gente tem mesmo um prazo de validade. E tem que ter mesmo. Hoje já me sinto deslocado, ultrapassado, imagina daqui a 20 anos? Não, não, obrigado. Não que eu esteja com pressa, mas sinto tanta saudade dela, sabe?

Ah! Igual àquela mulher não se faz mais. Não. Não, senhor. A última dela foi ajudar um menino de rua que vivia perambulando lá perto da nossa casa. Eu, pra ser sincero, não gostava, achava aquilo perigoso, diziam que o moleque era batedor de carteira. E quem disse que ela ligava pra isso? Ignorava e sempre que sobrava uma comida levava pra ele. Ela tinha uma alma boa demais. Nunca vi igual.

E agora, vendo minha filha se levantando com esse sorriso complacente para mim, após ter limpado o meu descuido, me lembro muito dela.

Sinto saudade.

Já tem 3 anos (4 meses e 2 dias) que se foi. Me deixou. Agora é só esperar pra gente se encontrar do outro lado.

E será que encontra mesmo?