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Série [Caleidoscópio] – O Pivete

Série [Caleidoscópio] – O Pivete

Sou vagabundo mermo, tá ligado?

Quando os comédia dão bobeira, eu dou o bote e tomo. Quero ver quem me pega. Tem uns otários até que tentam, mas não dá não, viado, entro no meio dos carros e dos ônibus, aí já era, viro vapor, que nem meu apelido. Faço os meu corre pelo Centro, conheço isso aqui como a palma da mão, sei onde desemboca cada ruazinha dessas. Rodo tudo isso aí, Presidente Vargas, Rio Branco, Carioca. A noite, eu fico mais na Cinelândia e Lapa. Ali é tudo nosso.

Eu me amarro nas cara deles quando bate de frente com nosso bonde na pista, tudo assustado, escondendo bolsa, celular, relógio, entrando no primeiro prédio que vê. Eu, Tuchinho, Jojó, Rato, Mudo e Doidinha. Os menor pesadão. E não tem jeito não, tio, se for mulher ou velho, a gente vai pra dentro mesmo, tá ligado? Ah! gringo também. Se bem que semana passada quase que rodei. Fui dar o bote numa branquela, com celular na mão dando mole, e não vi que tinha um maluco atrás dela. O filho da puta pegou no meu braço com força, não conseguia me soltar, já tinha tomado uns socos na cabeça quando comecei a escutar os cara das lojas da Rua da Carioca gritar: “Quebra logo ele!”, “Marginal desgraçado”, “É bem feito, essas crias do capeta!”, pensei, “Acho que agora deu ruim”, e aí, uma menina apareceu do nada e falou pro cara me soltar, que violência não era solução, que ele não tinha o direito de me bater, ela tava revoltada, nervosa com as outras pessoas falando, começou a discutir com a rua toda, “Que absurdo, solta ele!”, “Não fode! Leva ele pra casa então!”. Essa que foi a sorte, nego se distraiu e eu consegui fugir, corri muito aquele dia. Mas sei que dei mole, não devia ter cheirado loló de manhã. Essa porra me atrapalhou.

Agora, foda mermo foi há um tempo atrás, fiz um bagulho muito doido. Tem um tempo isso já, a mulher tava dando entrevista ali perto do camelódromo. Falei pro Tuchinho: “Quer ver eu aparecer na TV?”, ele não acreditou. De noite, quando vi o repórter correndo desesperado atrás de mim, eu ri pra caralho! Tuchinho, ficou como? Falei pra ele: “Viu, cuzão, não duvidou de mim?”. Geral ficou tudo pelando meu saco depois disso, ainda dei um pega na Doidinha que ficou toda se querendo, agora que apareci na televisão. O problema é que os canas deram uma apertada, aí o Danda mandou eu dar uma sumida, falou que eu tava pichadão na área. Fiquei puto. Nessa época, brotei lá na 24 de Maio, fiquei no sapatinho, sem vacilação. Uma tia até me quis me dar uma moral. Me levava uma comida quase todo dia. Depois ela veio com papo de estudar, pra depois arrumar um trabalho. Dei logo o papo nela: “Oh tia, não quero estudar nada não! Isso aí é maior caozada, negócio é ganhar dinheiro”. Depois disso, meti logo o pé dali. Nem perdi tempo dizendo pra ela que já quis ser doutor, advogado, pra ajudar meu irmão mais velho que tava no Bangu I. Pegou 25 no 157. Mas não deu tempo. Mataram ele lá dentro. Aí larguei de tudo, vazei do barraco e toquei o foda-se. Menos uma boca pra alimentar lá.