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Riso e constrangimento em “Que Horas Ela Volta?”

Riso e constrangimento em “Que Horas Ela Volta?”

Ao sentar na poltrona do cinema para assistir “Que Horas Ela Volta?”, o sentimento que eu mais esperava, baseada nas críticas que havia lido, era o de constrangimento. E sim, a vergonha alheia me tomou em alguns momentos, mas não foi a sensação predominante. Vi o filme todo sorrindo.

A Val de Regina Casé é tão crua e maravilhosa que nem sei se vale a pena tentar descrevê-la. Sua ternura e simplicidade são absurdas. Tem que ver para entender.

O filme fala sobre relações complexas, tanto familiares quanto de trabalho, que vão se misturando ao longo da narrativa. No centro da história estão a protagonista e a antagonista, cada uma de um lado da moeda: a empregada, que abdicou de criar a própria filha para ganhar a vida criando o filho da patroa, e a patroa, que abdicou de criar o filho para fazer suas próprias coisas. No fio da navalha estão a filha e o filho, jovens unidos por esse denominador comum e fazendo as vezes da nova geração, em que esse tipo de relacionamento servil talvez não faça mais tanto sentido.

Não sou grande entendedora de cinema – acho até que é a primeira vez que publico um texto sobre isso. Não sei fazer análises profundas de direção, roteiro, fotografia e afins. Gosto muito de bons filmes e “Que Horas Ela Volta?” é excelente: bonito, tocante e te arranca boas risadas, tanto de graça quanto de nervoso. Tem jogos bacanas de cena e um uso, a meu ver, muito inteligente de efeitos sonoros sutis, como barulho de obras e da chuva, que complementam as belas cenas. Também curti o fato de que algumas cenas são bem escuras, quase mal iluminadas, o que também serve como catalisador da mensagem.

Por que não me senti constrangida diante do filme? Porque manjo um pouco das engrenagens do mundo e sei que é bem assim que a banda toca. Conheço muita gente que trata a empregada como dona Bárbara trata Val – diz que ela é como parte da família, mas não bota esse discurso em prática. Ri alto em vários momentos do filme por reconhecer na personagem principal traços da personalidade de pessoas que conheço, como a moça que foi diarista na casa da minha família – e posteriormente na minha – durante mais de 20 anos.

Acho que todo mundo que tem, teve ou já pensou em ter uma empregada deveria assistir ao filme, que é um baita exercício de empatia. O longa é inteirinho filmado do ponto de vista de Val, figurativa e literalmente. Não creio que seja possível vê-lo sem se colocar no lugar da protagonista e entender um pouco de seus anseios e dificuldades. Vale a pena para ampliar as perspectivas. Para quem não precisa, ou deseja, repensar as relações entre empregados e patrões, vale pela beleza de uma história tão comum e bem construída, capaz de emocionar até os corações mais peludos.

Sabia que Regina Casé era boa atriz desde os tempos de TV Pirata, mas fiquei surpresa com sua Val. Ela conseguiu construir uma personagem naturalmente caricata, cujos trejeitos não parecem forçados nem por um segundo, e, ao mesmo tempo, com uma carga dramática intensa.

Em suma, “Que Horas Ela Volta?” é um filme obrigatório nesses tempos em que tanto se discute luta de classes – embora muitos sequer saibam que é a luta de classes que estão discutindo quando falam em Bolsa Família ou em chacinas na periferia. Assistam uma, duas, mil vezes. E sorriam, principalmente no fim, quando – sem spoilers – vemos que a distância entre uma ponta e a outra pode estar finalmente ficando um pouco mais curta.

Poster do filme

Poster do filme

 

Trailer

  • Milton

    Deu vontade de ver! 🙂