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Moonlight é a vida traduzida em forma de cinema

Às vezes, ao entrarmos em uma sala de cinema, não temos ideia do acontecerá: diante do filme, poderemos rir, chorar ou até poderemos modificar nossa visão de mundo. “Moonlight” (2016) é mais uma prova de que o cinema ainda provoca não só pensamentos, questionamentos, mas também transformações.

“Moonlight” estampa na tela valores, atitudes, emoções, revoltas, vergonhas, questionamentos, afirmações, reflexões etc. Tudo isso decorre do uso engenhoso que se faz da câmera, a qual desperta no espectador uma pluralidade de sentimentos e sensações de forma ordenada e precisa no momento conveniente.

A câmera, nossa guia, persegue a história de Chiron, um menino negro que vive, na década de 1980, em uma periferia tomada pela droga do momento: o Crack. Essa “moda” afetou sua família e, consequentemente, a vida do protagonista, tornando-se a primeira dificuldade que o jovem precisou superar.

Nessa primeira parte, Chiron é Little. Interpretado por Alex R. Hibbert, Little é cabisbaixo e de poucas palavras. É vítima de bullying diário na escola e não tem, em sua casa, um porto-seguro para poder vencer as dificuldades da infância.

A raiva, não exagerada, que é possível sentir de sua mãe (Naomie Harris), inicia-se ainda na primeira parte do filme, porque ela negligencia a criação do próprio filho por causa das fraquezas dela, como a falta de vontade de vencer seus vícios. Embora as admita em seus momentos de loucura, a mãe não promove nenhuma tentativa de superá-las para estar lado de Little.

É ainda na primeira parte que o traficante Juan, interpretado de forma espetacular por Mahershala Ali, com sua namorada Teresa (Janelle Monáe) tornam-se um alicerce inesperado para Little. Um paradoxo, é verdade, da tentativa de recuperação daquilo que eles mesmos destroem para ganhar dinheiro.

 

Relacionamento sincero e cativante de Juan com Little

 

A relação entre Juan e Little é tocante desde o início: seus laços são criados em poucos segundos devido às circunstâncias do momento, afinal Juan surge como um salvador para um dos vários momentos de bullyng que Little sofreu. Na realidade exibida no filme, não há tempo para preliminares. No melhor estilo selva de pedra a relação entre as pessoas é binária: confia-se ou não; respeita-se ou não; ama-se ou não.

Mahershala Ali consegue criar um vínculo tão sincero entre Juan e Little, que os momentos nos quais o traficante entrega-se e “desaba” emocionalmente são uma tentativa de salvar da destruição uma pequena parte da realidade por cuja devastação ele, Juan, é o responsável imediato.

Na segunda parte, Little agora é Chiron e quem dá vida ao personagem é Ashton Sanders. Agora adolescente, adiciona dramas instáveis ao fardo que já carregava. A descoberta de quem é e a forma de lidar com os problemas montam cada fragmento dessa “bomba”, que é o segundo arco de filme.

 

Chiron durante a sua conturbada adolescência

 

Na terceira e última parte, conhecemos Black. Interpretado por Trevante Rhodes, é a transformação de Chiron naquilo que ele mais respeitava e admirava: Juan; o único exemplo de bondade, mesmo que distorcida, que era próximo durante sua infância. Black apresenta-nos outro paradoxo: o que sou contra quem eu gostaria de ser. O fardo carregado agora é outro, mas as faltas de resoluções do passado ainda o perseguem e tiram suas noites de sono.

Apesar de o filme ser ambientado em 1980, as histórias de Little, Chiron e Black acontecem desde muito antes de 1980 e acontecerão, infelizmente, até muitos anos depois de 2017. Ignoramos que, muitas vezes, os personagens são nossos vizinhos, amigos, colegas ou conhecidos. Moonlight é uma obra atemporal e, mesmo que um dia o preconceito acabe, será um fiel retrato de um tempo obscuro de que todos nós fizemos parte.

Little, Chiron e Black são partes de histórias que ignoramos todos os dias. Fechamos nossos olhos para o que acontece em nossa volta, sem peso algum na consciência e depois ficamos chocados quando elas chegam a situações extremas.

O filme na sua totalidade é lindo. Fotografia, direção de arte e tudo o que envolve a produção do filme foi feito com um grande cuidado e consegue passar as mensagens com sutileza, sem que elas pareçam grosseiras ou possam ser entendidas de outra forma.

Apesar de o filme ter sido lançado em 2016, ele chegou ao Brasil apenas em 2017 e por isso a minha escolha como melhor filme do ano passado foi a “A Chegada”, contudo, Moonlight, com certeza, será um dos melhores filmes de 2017. Talvez seja um dos melhores filmes da história do cinema.

Vale a pena assistir e permitir se envolver com essa história, que alguns podem até dizer que é clichê…, mas ela só é clichê porque a vemos todos os dias e optamos por ignorá-la.

Nota: 9 Stars (9 / 10)

 

 

Pôster do filme Moonlight

  • Não tinha ouvido falar desse filme ainda. A fotografia parece realmente boa e a história parece ser emocionante. Entendi quando cê falou do clichê, mas acho que filmes assim são importantes de serem feitos e exibidos e que chamem a atenção. Vou dar uma procurada nele (:

  • Eu tenho um encanto enorme pelo trabalho de atuação do Mahershala Ali e, só de saber que ele está no filme, já fiquei com vontade de assistir! A sua resenha sintetizou o longa de maneira muito bonita, com certeza irei vê-lo.

    Seguindo essa ~pegada~ há “Beasts of no nation”. Você já assistiu? Caso não, recomendo!

    Abraços,
    https://victoriafelet.blogspot.com.br/

    • Ainda não assistiu “Beast of No Nation”. Preciso corrigir essa falha.

      Conheci o Mahershala Ali em House of Cards, mas confesso que não conhecia muitos trabalhos dele. Depois vi ele em Luke Cage, que ele mandou muito bem e agora em Moonlight.

      Que ator! Vou ver outros filmes dele, pra conhecer mais do trabalho.

  • Daniele Yui

    Parece muito bom o filme e adorei sua resenha, deu até vontade de asssitir. BJo!

    http://www.pandapixels.com.br

  • Esse eu não conhecia, parece ser um filme muito tocante. Entrou para minha lista!
    A resenha ficou muito legal, bom trabalho!
    <3

    • Obrigado pelo elogio.

      Moonlight estreiou na gringa em 2016, mas aqui só chega em 2017. Ele vem disputando, ao menos na crítica, a posição de melhor filme em diversos prêmios de cinema.

  • Oi, Cadu! Vou ser sincera contigo, não posso ler! Hahahaha. Eu to doida pra ver Moonlight e evito ver trailer e resenhas antes. Mas vou salvar aqui pra voltar quando assistir. 😀

    • @katarinaholanda:disqus volta mesmo, hein? 🙂

      Assisti ele em uma cabine de imprensa. E, com certeza, vou ver no cinema de novo.

  • Nossa, muito interessante!
    Histórias atemporais são o que precisamos hoje. No nipe desse filme, estilo documentário, o que assisti se chama Spotlight. E fiquei com vontade de assim esse. Não tinha ouvido falar sobre.

    • Também assisti Spotlight. É outro filme incrível e que dá aquele famoso “tapa na cara” da sociedade que fecha os olhos para o que acontece embaixo de seu nariz.

      Moonlight estreia dia 23 de Fevereiro nos cinemas. 🙂

  • Marcela Fabreti de Oliveira

    Cadu, conheci o blog agora e já quero colocar num potinho (apesar de ter achado o design um pouco caótico). A forma como tu escreveu essa resenha foi super evoluída, tá na cara que você sabe o que tá fazendo por aqui. Mandou bem de verdade. Se eu colocar em palavras a vontade que eu fiquei de ver esse filme, você vai achar que é exagero. A sensibilidade que a história parece passar realmente aparenta ser capaz de mudar a forma como a gente pensa e vê o mundo, e a forma como o filme brinca com a índole dos personagens, colocando um traficante, ao mesmo tempo, na posição de vilão e de redentor, é algo difícil de encontrar hoje em dia. Já sei onde estarei dia 23 de fevereiro.

  • Ana Letícia Pinheiro Silva

    Olá, Tudo bem? Adoro filmes que trazem uma crítica social e lendo sua resenha vejo que esse filme tem tudo que procuro. Obrigada pela indicação.

    Tchau e até logo.

  • Shark Girl

    Confesso que não li a critica e fui direto pro trailer, sabe porque? To com medo de levar spoiler, depois que vi o trailer sentir a NECESSIDADE de assistir o filme e faz tempo que isso não me ocorre (senão teria lido a critica). Eu preciso ver esse filme tipo, AGORA. Eu nunca nem ouvi falar desse filme, mas de cara assim, já me ganhou na fotografia. Acho que devo sair mais de casa, porque é quase um pecado que eu não tinha nem ouvido falar sobre este.

  • Eu tinha ouvido falar do nome Moonlight em algum desses ruídos de comunicação que a gente não presta muita atenção, mas não sabia dizer sobre o que era a história.
    Não tinha lido nenhuma resenha e nem visto na grande mídia. Gosto desse tipo de filme, com uma pegada que lembra a gente pra quê o cinema foi feito, não para aqueles filmes de explosões e uns pow pow pow superficial.
    Fiquei muito interessada e com certeza vou conferir.

    http://www.jadeamorim.com.br

  • Nando Champss

    Uau! Agora até eu quero assistir esse filme, não só pelo trailer, mas muito pela forma como você retrata o filme, quanta sensibilidade. Bela resenha. Parabéns!!